segunda-feira, 14 de julho de 2014

Glamorama: o mundo da Moda colocado em cheque

por João Ibaixe Jr.[*]






As diversas referências que vi ao livro “Glamorama” de Bret Easton Ellis, como epígrafe em textos sobre moda, despertaram-me a curiosidade de conhecê-lo. Lançado no Brasil em 2001 e esgotado, fui encontrá-lo num sebo.

Mais conhecido por “Psicopata Americano”, o qual virou filme, com Christian Bale no papel principal do yuppie, cujo vazio existencial é preenchido pela prática de assassinatos em série, Ellis é visto como autor da geração X e crítico da sociedade de consumo e do individualismo exacerbado.

Por seus livros, ele consegue ser amado e odiado pela crítica especializada, mas três deles foram para as telas (o mencionado “Psicopata Americano”, “Regras de Atração” e “Abaixo de Zero”), elevando o autor à categoria de celebridade.

Talvez por isso, em “Glamorama”, Ellis ataca justamente a figura das celebridades, presas a um mundo de aparências e culto vazio à própria imagem. Enquanto no “Psicopata”, o foco está nos “young urban professionals”, símbolos de uma geração ambiciosa de Wall Street, aqui se trata dos modelos, atores e profissionais do universo da moda.

A narrativa ágil e fragmentária lança o leitor no mundo frenético em que personagens do mundo fashion dialogam, ou fofocam, sempre pensando em frivolidades e interesses mesquinhos para preservar aparência e status social.

O modelo Victor Ward narra a trama em primeira pessoa. Com 27 anos, é a bola da vez. Bonitão, sempre rodeado por garotas esculturais, namora a super top model Chloe, mas a trai com outra ou outras. Suas preocupações são aparecer em capas de revista, manter o corpo malhado e inaugurar seu bar num ponto supervalorizado de Nova Iorque, além de buscar a carreira de ator.

Acompanhado de gente fútil, pretende que seu clube seja frequentado pelas grandes celebridades, cujos nomes desfilam no livro a torto e a direito, em mais de mil citações, acompanhadas de marcas e lugares “in”. Tudo corre leve e solto até que ele conhece a figura misteriosa de Fred Palakon, que o recruta para a estranha missão de resgatar uma antiga namorada em Londres.

A partir daí, uma avalanche de situações surreais, envolvendo espionagem, terrorismo e muita tietagem, tem lugar enquanto ainda os personagens mantêm uma postura superficial ligada à preocupação com o consumo excessivo e a estética vazia. Muita violência, sexo e... trilha sonora, com a figura esparsa de um diretor que, vez ou outra, determina a volta da cena ou grita “corta”. Seria tudo um filme?

Certamente o livro será filme – aliás, já existe projeto para isso – e a forma literária adotada convida a essa passagem. Embora bem escrito, com todas as suas citações de objetos de consumo, ele pode também integrar esse universo.






[*] João Ibaixe Jr., escritor e advogado, é vice-presidente da Comissão de Estudos em Direito da Moda da OAB/SP e colaborador do Guia Livros da Folha de São Paulo
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