quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ainda sobre as origens da Moda



“Frequentemente o artista percebe os ventos que sopram, vale dizer, as causas, as responsabilidades, os motivos, muito antes que qualquer outro cidadão” (Thomas Paine, “La Nuit de Varennes”, Ettore Scola)



Imagem para ilustrar o Zeitgeist dos anos 40
Foto de Irving Penn para Vogue



Continuamos a falar sobre teorias que explicam a origem da Moda. Em artigo anterior, discorremos sobre as teorias do status. Falamos agora sobre outra: a teoria do “Zeitgeist”.

A expressão alemã “Zeitgeist” pode ser traduzida como espírito do tempo ou espírito da época. Embora usada anteriormente, é atribuída ao filósofo alemão Hegel (1770-1831), que fala em “Geist der Zeit”, como espírito do tempo e “Weltgeist”, como espírito do mundo. Para ele, seria uma espécie de forma cósmica que se materializaria historicamente, permitindo a formação da arte, da religião e da filosofia. Assim, a mentalidade, a vida social e os produtos culturais compartilhariam desse espírito comum e, a partir dele, se efetivariam em modos e obras.

Nosso objetivo não permite digressão mais aprofundada sobre a complexidade do termo num filósofo tão profundo quanto Hegel. Diz-se, em síntese, que paira no ar um conjunto abstrato de ideias que são captadas pelos indivíduos, fazendo-os pensar e agir de forma assemelhada num determinado período do tempo.

Com base em tal noção, o sociólogo americano Herbert Blumer (1900-1987), em seu artigo “Fashion: from class differentiation to collective selection” (publicado na revista Sociological Quarterly, v. 10, p. 275-291, 1969), apresenta a tese de que a Moda não advém de diferenciação de classes, mas de uma seleção coletiva. Diz ele, em tradução livre:

“Os esforços de uma classe de elite para colocar-se em apartado quanto à aparência tem lugar dentro do movimento da moda ao invés de configurar sua causa. (...) As pessoas de outra classe que conscientemente seguem a moda o fazem porque ela é a moda e não por conta do prestígio distinto de um grupo de elite. (...) O mecanismo da moda aparece não em resposta a uma necessidade de diferenciação ou emulação de classe, mas em resposta a um anseio de estar na moda, de estar a par do que parece ser bom, de expressar novos gostos, os quais emergem num mundo constantemente dinâmico”. (p.281/282)

Para Blumer, a origem da moda não estaria na diferenciação de classes ou na dialética entre universal e particular, mas em uma espécie de gosto coletivo, proveniente da dinâmica do mundo, que se materializaria nos modos de vestir-se e apresentar-se. A moda seria a apreensão material e, portanto, histórica, do espírito de uma época, quanto à sua produção cultural relacionada ao vestuário e objetos e modos ligados a este.

A diferença central para a teoria do status é que, nesta, a diferenciação de classes é colocada como causa anterior ao processo de formação da moda. Para a teoria do Zeitgeist, a moda é um processo no qual a elite também está envolvida, porém, teria condições de apropriar-se desse anseio abstrato comum mais rapidamente que as demais classes, mantendo-se em sintonia com seu tempo.

Enquanto teoria, ela se sustenta melhor, pois explica de forma mais adequada o problema da difusão da moda. Por outro lado, sua deficiência é apresentar um conceito, o de espírito do tempo, que não possui conteúdo semântico definido, compondo o que os linguistas chamam de lugar retórico comum. O que é o espírito do tempo? Seria o imaginário, o inconsciente coletivo, o espaço da cultura? A explicação disso é hoje um dos grandes problemas da psicologia social.

Soma-se que, em nossos “tempos hipermodernos”, como diz Lipovetsky, nos quais o consumo se insufla e se dispersa em todas as parcelas da vida social, baseado numa lógica hedonista, de busca desenfreada pelo prazer, como seria possível recolher o espírito do tempo? Se tudo o que era sólido se desmanchava no ar, hoje esse ar tornou-se rarefeito em demasia e é difícil respirá-lo.


Compreender as origens da Moda e alcançar seu conceito talvez seja investigar a própria noção de mundo atual e, para o Direito, enquanto relacionado à indústria da Moda, colocar em jogo toda sua estrutura de entendimento até o presente. Eis o grande desafio para o futuro fashion lawyer.


Por João Ibaixe Jr e Valquíria Sabóia

Publicado originalmente em Migalhas

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